segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Mais vergonhas...

- Anos 80, um amigo pediu que eu fosse com ele experimentar um violão de segunda mão que pensava em comprar. De ônibus até São Conrado, uma lonjura. Chegamos, entramos numa bela casa, e na sala um enorme óleo do Albery retratando a grande atriz Rosamaria Murtinho. Outros quadros menores dela, retratos no móvel igualmente com ela. Meu amigo, homem fino e com traquejo social:
-Pô, cara, tu gosta dessa mulher, hein?
Ele, meio sem jeito:
-É minha mãe…

- Eu dava aula na Gama Filho, época de vestibular, na praça de alimentação um rapaz com cara de imbecil se pavoneava para duas moças com uma cópia da prova na mesa. Passei, crachá de professor, o mané a fim de curtir com minha cara:
-Moço, você é professor, então sabe as respostas, né?
E riu o riso dos idiotas, as moças, à falta de coisa melhor, riram também. 
Olhei sério nos olhos dele e disse que sim, eu sabia tudo. Ele ficou meio desconcertado e, para não perder a pose, me mostrou uma questão da prova - química, matéria na qual sou um néscio.
-Olha essa aqui, eu respondi letra D.
Li a questão e para minha extrema surpresa eu sabia a resposta. 
-Você errou. Nas mudanças de estado físico não ocorrem mudanças de temperatura, ocorre a formação de patamares.
Ele me olhou assustado, e as moças riram. Resolvi tentar o destino:
-Alguma coisa realmente difícil?
Ele, com a cara mais idiota ainda, achou outra questão, afirmando que não fazia idéia da resposta. Biologia, sei menos que química. Nome dado ao espermatozóide que não chega ao ovócito secundário. Existe um Deus no céu, eu sabia a resposta:
-Merócito.
O sujeito ficou com a cara mais imbecil ainda, e as moças gargalharam. Ele fez menção de achar outra pergunta, o detive - seria arriscar demais:
-Desiste. Eu sou professor, mas não estou aqui para dar aula de graça para ninguém. Estuda, menino! 
Virei as coostas e saí, majestático. 
Que é que há, a gente tem que contar as vitórias também, pô!

- SESC Vila Mariana, Sampa. Recital do Duo Siqueira Lima, um milhão de pessoas na platéía, ele fala:
-Queríamos agradecer a presença de nosso amigo Ricardo Dias, que veio do Rio…
Fiquei envergonhado e comovido pelo carinho. Seguiu:
-… só para nos ver. 
Apontou na minha dreção, um milhão de cabeças se viraram para mim..
- Esperamos que ele esteja gostando, pois ele é MUITO enjoado…
Um milhão de cabeças rindo de mim. Os mesmos, mas aqui no Rio, ele anunciando:
-Vamos tocar, de Dominguinhos, o "Contrato de Separação" e queríamos dedicar ao nosso amigo Ricardo Dias. 
Ela completa:
-É que ele vive se separando!
Um dia vai ter forra…

- Dava aula em Rio das Ostras, fui à Globo-Macaé para dar uma entrevista no RJTV ao vivo. Zero de tecnologia, eles eram avisados da hora de entrar no ar pela própria tv, uma esculhambação. Cheguei cedo, a menina me taca um pó na cara, e falando como se eu fosse um imbecil:
-A repórter vai fazer uma perguntinha assim, o senhor responde olhando para a luzinha, vamos dar uma ensaiadinha? Tem que falar rapidinho, não pode olhar para o ladinho, nem...
-Vamos…
-O senhor é o professor de curso de luteria,  ministrado em Rio das Ostras. O senhor poderia falar um pouco sobre o curso?
Olhei-a nos olhos, e rosnei:
-Poderia.
E não disse mais nada. Ela, meio sem jeito:
-O senhor não vai fazer isso ao vivo, vai?
-Se você não me tratar como um débil mental, talvez. Não precisa ensaio, eu sei as respostas (mais ou menos, dei um endereço errado do local onde dava aula…). Saiu tudo bem, fui almoçar. A tv no restaurante ainda passava o jornal, algumas pessoas começaram a olhar para mim, se cutucando. Fiquei meio envergonhado, até que um cidadão se aproximou:
-O senhor apareceu na tv agorinha mesmo, não foi?
Aquiesci, modesto como convém a uma celebridade.
-Não entendi nada do que o senhor dá aula. É corte e costura?
Sic transit gloria mundi...